segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

gravidade

Acordou e, sem pensar, esticou o braço, agarrou no comando e escolheu a música que falava da gravidade. O botão de repeat acendeu-se e ela escutou-a vezes sem conta, vezes seguidas, obrigando-se a não cantar, a escutar a letra com atenção, a compreender como cada nota tinha impacto, enquanto se arranjava para uma nova semana. Na casa silenciosa, a música fez-se ouvir de forma repetida, a mulher calando-se de cada vez que tinha a tentação de a reproduzir com a sua voz. Por fim, o espaço ficou em silêncio, ela desligara a repetição. Por um instante, estremeceu, como sempre tremia face a tomadas de consciência, a momentos de mudança. Abriu a janela , ficou sem ar de tanto medo mas sem hesitar, saltou. A luz e o ar frio envolveram-na nos seus braços e deixaram-na cair, de pé, na calçada. A mulher tremia agora em cada bocadinho de pele. Contudo, era preciso. Na vida, por vezes é preciso deixar-se cair. Depois, apenas depois de sentir a queda, de experimentar o inebriar da luz e o receio da escuridão, será possível, finalmente, voltar a confiar.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

pois

Há uma palavra na nossa língua que serve para tudo e mais alguma coisa. Serve para concordar, serve para discordar de maneira diplomática quando associada a um 'mas', serve para ser enfático quando associada ao verbo ser e serve também quando se fica sem palavras ou mesmo com uma certa sensação de impotência, cansaço ou tristeza. Pois.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

listas

A mulher tem uma lista interminável de coisas por fazer. Ela gosta de listas, aprecia sobretudo o prazer da tarefa feita, do assunto resolvido, das pessoas queridas a contactar dos sonhos por cumprir. Precisa de as escrever para não se esquecer da vida. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

amarelo e rosa

Eram sete da manhã. A ponte sobre o Tejo brilhava sob um céu amarelo e rosado, o sol ainda escondendo-se por baixo dos tabuleiros. No silêncio da casa, ainda adormecida, a mulher sorriu. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

fechado para mais palavras

Sessenta e muitas ideias para colocar em palavras e escrever um livro de uma empresa. Não sobram muitas mais, confesso. Prometo voltar na semana que vem. Até lá, leiam, leiam muito. As histórias e os seus autores merecem a vossa viagem.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

lo mucho y la nada

Nada a acrescentar. Muito a retirar.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

tentação

O homem falou. E falou. E falou. Sem dizer nada de interessante. Nada de nada. É incrível como as pessoas perdem a totalidade da noção de como podem ser desinteressantes e estar tão cheias de si mesmas. Absoluta falta de inteligência, penso eu. Mas, como sempre digo aos meus filhos, passar por estas situações serve para afinar o critério, refinar a nossa humildade e procurar nunca cair na mesma tentação.