terça-feira, 17 de julho de 2012

a obra do irresponsável

É já amanhã (espero eu) o meu dia de libertação. Faço o exame final e, a partir daí, a vida suaviza-se. Uma linha a menos na habitual lista de tarefas, noção idiota de dever cumprido, menina-bem-comportada-e-consciente que me acompanha desde sempre. Uma Licenciatura iniciada há mais de vinte anos, completa-se agora. Vontade de ter canudo? Nada disso; sentido prático absoluto e vontade de poder (um dia) aprofundar outros temas com maior prazer (sim, eu gosto de estudar). Graças a Deus com a idade adulta tenho aprendido a assumir o meu lado mais irresponsável. Uma verdadeira obra.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

injecções na veia

Me-mo-ri-zar. De-co-rar. Verbos horrendos que ela detestava. Implicavam esforço, obrigação, conhecimento adquirido quase sem consciência, os conceitos atropelando-se uns nos outros em listas infindáveis. A mulher sempre adorara o conhecimento em comprimidos de histórias que se tomavam de boca aberta no espanto da descoberta. Agora injecções na veia, dolorosas e no formato 'tudo de uma vez', não, não era a praia dela, como dizia o clichée. Leu o desabafo e sentiu-se culpada pelo tempo perdido. Então, escreveu um ponto final e voltou às listas e páginas intermináveis. Tinha de ser. 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

o amor, tem arranjo?


E então, ela perguntou:

- O Amor, tem arranjo?
- Tem,...

Disse ele,

- ... basta apenas levá-lo á oficina certa.
- E qual é?

Perguntou ela, ao que ele respondeu:

- Tem quatro nomes: Consciência, Responsabilidade, Humildade... e muito Amor.

Ela sorriu.



agora, em clip, muito melhor



(obrigada, Carlos)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

em jeito de tartaruga

Estou na recta final, pensou a mulher, faltam-me dois cagagésimos para chegar ao fim e a preguiça ultrapassa-me. Os cagagésimos resumiam-se a um trabalho individual e um exame de peso, dali a quatro e sete dias, respectivamente. Vais deitar um ano a perder?! Lentamente, como um caracol que se estica e desenrola para sair da casca, a mulher começou a ler os materiais. Sentia-se como uma tartaruga a ter que percorrer um longo caminho não no mar mas em areia seca e demasiado fina. Tinha que ser e este tinha, tinha muita força, a tartaruga não se queria enterrar.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

deixa-te estar quieta




Habituada a resoluções, a mulher não sabia o que fazer. Se fosse um amigo, dava-lhe uma descasca, dir-lhe-ia que o melhor seria começar a espevitar e depois daria o seu braço como apoio. Se fosse o filho adolescente, um abanão e dois beijos logo de seguida não retirariam a cara de nojo militante própria da idade, mas pelo menos obrigá-lo-iam a reagir. Se fosse um cliente, mais fácil ainda seria, bastava tomar nas suas mãos o trabalho dele e agir. O problema é que era o seu corpo, hoje de certa forma esvaído, sem reacção. E o corpo não vai em admoestações, e muito menos aceita que alguém tome como seu o seu trabalho. A mulher resignou-se e obedeceu. Hoje, o corpo mandava e a ordem era: deixa-te estar quieta.