sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Meninas-a-rir

Pertencem à família das Curcubitáceas, a mesma da melancia, do melão, do chuchu e do pepino. São primas das courgettes e e as variedades têm nomes engraçados como Abóbora-seca, Baianinha, Abóbora-menina (uma das minha preferidas), Abóbora-chila, Abóbora-porqueira, Abóbora-almiscarada ou Abóbora-carneira. Eu gosto tanto delas que sempre que as vejo faz-me pena que as cortem porque as acho muito bonitas.
O facto é que as abóboras riem. É verdade, riem de muitas maneiras. Cortadas aos pedacinhos e deitadas em água a ferver, sorriem transformadas em sopa ou creme. Com menos água e bastante açúcar, dão gargalhadas em compota; e se lhes juntarmos pinhões, ficam mais finas e apreciam a companhia de um requeijão para ficarem contentes. Podem ser assadas, cozidas em bocados gigantes e untadas com manteiga e sal: continuam a rir na mesma. 
Do que eu não gosto mesmo é de histórias de bruxas, fantasmas e coisas sobrenaturais. Sou muito Alexandra-menina, confesso, sobretudo para essas coisas. Por isso, o Halloween na sua vertente negra, não me agrada nada. Só as abóboras de sorriso estampado na cara, e sobretudo as que o fazem com ar mais matreiro, me reconciliam com esta tradição que importámos à força dos Estados Desunidos da América. Mas é porque são abóboras, o legume mais gráfico do mundo que fica bem em qualquer lado e ainda por cima nos enche de vitamina A. E por A começam todos os ataques de riso e gargalhadas.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Princesa Valente

Há exactamente dois anos diagnosticaram-lhe o que ela mais temia: um cancro. Atirou-se a ele com uma coragem que achava que nunca iria ter. Deu ao marido a força que ele não tinha, animou os filhos e distribuiu beijos pelos netos como se tivesse acabado de sair de uma operação de renovação estética de um pulmão. A energia dela era tão grande que no hospital a equipa inteira a chamava de princesa. Com toda a razão, porque é isso mesmo que ela é. 
Já passaram dois anos; ligou-me há dez minutos, recém-saída da consulta de controle oncológico. "Podemos abrir uma garrafa de champagne", disse. Disfarcei o nó alegre na garganta, deitei o suspiro de alívio para trás das costas e deixei-me contagiar pelo riso franco de 78 anos que ainda acredita ter muito para criar. A minha mãe tem as mãos mais bonitas do mundo. 

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Bica

Não ligo nenhuma à comida. Nunca liguei. A almocite-aguda-militante que reina no nosso país sempre me pareceu um exagero e uma verdadeira perda de tempo. Sobretudo quando se torna necessidade absoluta. Claro que existem excepções. Uma delas é quando se aproveita essa hora para estar com alguém que não vemos há muito tempo. Outra, é, sem dúvida, almoçar na Bica do Sapato. Aí, confesso que me torno militante confessa da obsessão do almoço. Evidentemente que, no meu caso, não é pelo menu, apesar de ser excelente. É por todas as coisas boas que emanam daquele sítio, a começar na atmosfera, a continuar no rio, a prosseguir na luz que vem do rio e a acabar no rio. Claro que os magníficos arranjos florais ajudam, a educação dos empregados também, assim como a decoração. Mas é algo mais; e quem tem a Bica sabe, e tirou partido. Fez muito bem porque faz imensamente bem. Estive lá hoje. Nem me passa pela cabeça disfarçar.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Sementes que esborracham tanques

Hoje, ela não via. Não lhe apetecia. Não conseguia. Há dias assim, pensou por instantes. Mas ela odiava abandonar-se à inevitabilidade dos momentos: sempre se recusara a ver a vida passar sobre si mesma, abanando a cabeça em negação quando os outros afirmavam em certeza-absoluta que a existência era como um tanque de guerra desgovernado esborrachando ervilhas humanas. O seu poder de mulher que domina a sua vida puxou-lhe as raízes dos cabelos com força. Obrigada a olhar para dentro, fechou-se na concha. Então, dentro do seu casulo, tomou de novo consciência: há coisas mais importantes, há sementes ainda por cima geradas pela força humana criadora. 
O pequeno ser puxou-a para si, deu-lhe um abraço milimétrico e, em sussurro inaudível, disse "não te preocupes, vai correr tudo bem"
Abriu os olhos. As cores, embora ténues, pintavam o mundo de novo.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

- Mãe, se eu fosse budista tu importavas-te muito ?
- Claro que não. Se a mãe tivesse que escolher uma religião provavelmente também não preferiria a católica. Mas por que razão queres ser budista?
- Porque é a única religião na qual o representante máximo não se julga superior aos homens.

Tenho um crente com 12 anos em casa. Assim se desfazem clichées pessimistas de adulto do tipo "estes miúdos de hoje não acreditam em nada". Dêem-lhes conteúdo para ter fé e ela aparece; nasce livre, argumentada pela cabeça deles e fora das imposições porque-toda-a-gente-na-família-é ou porque-a-nossa-cultura-diz-que-devemos-ser-assim. No mínimo dos mínimos, é bonito.

domingo, 26 de outubro de 2008

No domingo, biscoitos

Esta brincadeira começou há sete anos, tinha ele precisamente cinco. O miúdo, como todas as crianças, era fascinado pela cozinha; então instituímos que todos os anos saudaríamos a chegada do Outono, cozinhando biscoitos. Assim temos feito até hoje, com uma diferença maravilhosa: de há dois anos para cá é ele quem reclama as boas vindas feitas de farinha, ovos, manteiga e açúcar.
Este ano, incluímos mais uma novidade: o meu marido resolveu juntar-se a nós e trouxe peixinhos, porquinhos, veados, cavalos, árvores e velas em formas pequeninas que contaram outras histórias à nossa tradição de Outono. Depois, foi mais uma hora a soprar farinha e a lavar tigelas, colheres e bancada. Mas tudo isso vale. Vale muito mais que três horas passivas diante de um écran. Nada fica mais na memória do que um cheiro verdadeiro, uma gargalhada expontânea ou um conto que se desfia enquanto seis mãos desenham fantasias na massa. O meu filho é prova disso. E por isso todos os anos insiste.

Matar saudades

No sábado, éramos nove. 
Começámos por ser oito na cozinha, enquanto eu adereçava a carne com os ingredientes mais simples do mundo, entre copos de vinho saboroso, cigarros e cigarrilhas aspirados no doce prazer de muitas conversas que se cruzam e entrelaçam em abraços rendilhados. 
Fomos nove à mesa com a companhia do meu filho de doze anos, para muitas coisas mais adulto que muitos, e um verdadeiro companheiro em ocasiões como esta.
No sábado, éramos nove. 
E quando se foram embora os últimos, às quatro e muito da manhã, tive muita pena. Pena de não ter dito mais vezes o quanto gosto deles. Pena de não ter demonstrado suficientemente o gozo de os ter aqui.
No sábado éramos nove. 
Nove verdadeiros amigos. Por isso é que não é preciso dizer mais nada. Eles compreendem tudo. Muitas vezes mais do que a nossa conta. 
Voltem sempre meus queridos.