quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Maçãs por um fio

O sr. Rebôxo é o faz-tudo aqui do pátio. Sendo completamente justa: é o ajuda-todos cá do sítio. Claro que o sr. Rebôxo é alentejano. Pequenino, usa um boné que não tira nem por nada e tem certamente para além de sessenta anos; mas o sorriso dele é tão fácil que obviamente pode ter muitos mais que parecerá sempre menos. 
No nosso pátio há uma árvore bem grande que é mais uma vizinha e, esta, das boas. Há cerca de um ano, quando me mudei para aqui, reparei numa maçã, já bastante desmaiada, que pendia de um fio de pesca por um dos ramos. Intrigada, perguntei ao sr. Rebôxo o que vinha ser aquilo, até porque a árvore não é nenhuma macieira.
" 'Tá-se memo a ver que a senhora é da província..." disse ele arrastando o sotaque. O brilho dos olhos e o sorriso cheiraram-me a partida. Era mesmo. O bom do Rebôxo, sabendo que a maioria das meninas do pátio provavelmente nunca tinha visto um pomar, resolveu dar-se ao trabalho de pendurar maçãs e pêras em todos os ramos antes da hora de chegada dos inquilinos do larguinho. Não teve que esperar muito pelo resultado daquilo que sabia que iria acontecer: dali a duas horas muitas eram as que perguntavam como era possível uma planta daquelas dar maçãs e pêras...
O sr. Rebôxo ri muito ao contar esta história. E quem o ouve, fica contagiado. Os Rebôxos da vida fazem mesmo bem. 

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Braços que falam

Abraço. Acto de envolver algo ou alguém nos braços. Muito mais que isso. Os abraços falam o que a boca não diz ou revelam o que as palavras escondem. Receber um abraço é sempre receber uma intenção. Não adianta escondê-la; o gesto vai destapá-la mesmo que quem o faça acredite que consegue ser actor. Os abraços vêm do peito, do centro, de dentro. São tudo menos frases feitas, certezas modernas ou sentimentos que ficam bem. Um abraço é Verdade. Eu não me permito a enganos quanto aos abraços. Não os desperdiço. Não os dou a quem não quero. Não os recebo daqueles que se escondem. Talvez por isso o meu mealheiro de abraços é sólido, está cheio, e é esbanjado sempre que existe a oportunidade de uma dádiva verdadeira.
Hoje tive dois, bem fortes, logo pela manhã. Eram honestidade absoluta sobre o amor e a entrega. Sem palavras, sem promessas ocas; com uma sinceridade plena que ficou gravada em cada centímetro de pele  de forma a perdurar para seja qual for a medida do sempre. Abraços assim valem a pena.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Panos do céu

O ar cheira a fresco. Poças dispersas em forma de coração, pé e estrela do mar explicam porquê a quem não ouviu o céu a limpar a terra de madrugada. Bem cedo, o mundo está transparente e em paz. A minha dor de cabeça desvanece-se.

domingo, 12 de outubro de 2008

A importância de ser pijama

Se alguém tiver um guarda-pijamas, por favor avise que é para eu ficar cheia de inveja. Pode parecer estúpido mas um armário só para estas coisas devia ser obrigatório. Não percebo como é que nunca ninguém nos ensinou isto. Um pijama, camisa de noite, vestuário para ir dormir, ou como se queira chamar, não é assim uma peça tão simples de escolher e está sempre carregadinha de significados. O acto de o usar depende muito da circunstância. Até aqui, tudo parece óbvio. Agora a forma como o usamos e sentimos é outra história completamente diferente. 
Eu aprendi a não gostar de estar num pijama qualquer na minha vida adulta, a dois. No entanto, sempre que chego à casa da minha infância, não abdico de tomar o pequeno almoço nesses preparos, tal como fazem os meus pais e tal como tenho a certeza que fariam os meus irmãos, se pudessem lá ficar quando passo os fins de semana com todos. Numa escapadela com amigas que não se vêem há muito tempo, o pijama tem de ser confortável para poder resistir às gargalhadas, às noites sem fim de conversa, ao fumo dos cigarros e às trocas inevitáveis de roupa que inevitavelmente se irão fazer. A camisa de noite que mostramos aos nossos filhos quando eles acordam com um pesadelo a meio da noite, geralmente esconde a outra maravilhosa de renda com que seduzimos o nosso marido antes de deitar. E a roupa para dormir que levamos numa viagem de trabalho muitas vezes é o descontrair de tudo isto porque finalmente estamos sozinhas e podemos usar as calças mais moles do universo e a t-shirt que não conseguimos deitar fora porque é a que comprámos na primeira viagem a NY há 20 anos e embora já tenha um buraco pequeno do ferro na gola continua a ser a mais bonita do mundo... mas apenas para quando estamos connosco. 
Não deixam de ser maravilhosas estas mil e uma maneiras de sentir um pijama. Eu, gosto especialmente de duas. A primeira é a dos regressos à minha família de origem. Tem o poder de me fazer sentir filha de novo e traz à memória a escolha difícil entre os papo-secos feitos em forno de lenha e as arrofadas a babar de manteiga e côco. A segunda é quando ele olha para mim de manhã e, sem reparar que tudo o que tenho é novo e foi comprado de propósito, me diz: não sei o que fazes, nem como o fazes mas és linda... és mesmo linda.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Santos

Tenho um escritório que é como se fosse casa.
É casa porque sempre quis viver de algum modo aqui. É casa porque todos os dias me faz sentir bem. É casa porque tem objectos que fazem parte da minha vida e da minha história. É casa porque me dá prazer cuidar. É casa porque tem vizinhos bestiais, vizinhos-cromos e vizinhos insuportáveis com os quais nem troco duas palavras. É casa porque é refúgio.
Mas também é como se fosse. E isso é duplamente agradável: às sextas-feiras fecho a porta com prazer e ás segundas volto com saudade. Até segunda, caro amigo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

No weather can tear us apart

Não importava a meteorologia da relação. Quer tivessem tido um dia de luz ou um dia de trovoada, as duas únicas regras que tinham em segredo, mantinham-se: as boas noites eram completadas com um beijo; o adormecer com a certeza de que não existiriam conflitos entre eles capazes de perturbar o mundo dos sonhos. 
Eles só queriam ter a certeza de que seriam capazes de acordar amanhã.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Que saudade

Saiu de casa. Fez parte das filas no trânsito. Suspirou. Deixou o primeiro filho na escola com um beijo e uma festa carregados de ternura. Tomou pequeno almoço. Deu alimento de amor ao miúdo ainda de dentro. Passou os olhos pela revista. Apanhou uma nova sucessão de automóveis vagarosos. Suspirou mais uma vez. Atravessou avenidas, subiu viadutos, virou várias vezes à direita e depois à esquerda em ruas sinuosas. E quando já estava bem farta de sentir a pele por cima do volante, do banco e do braço, chegou ao estúdio.

Reconheceu caras e estas reconheceram-na. Disseram-lhe "que saudades tuas". Ela esqueceu de imediato as mil rodas e os semblantes mal dispostos. No fim do dia estava cansada mas ainda lhe disseram "que saudades tínhamos de te ver, volta sempre".
Que sorte tenho, pensou.