terça-feira, 8 de outubro de 2013

sorte dos deuses

O que é que se chama a um filho de dezassete anos que nos aceita, ajuda, compreende e apoia em qualquer decisão de maior? Chama-se grande companheiro. E enorme dádiva dos céus.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

by the window

Cinco da manhã. Sem conseguir dormir, a mulher abriu a janela e cruzou os braços no parapeito. Sentiu a presença. Era Seth, como sempre do lado esquerdo.

Tinha a esperança que estivesses aqui, disse ela.

O anjo sorriu:
The word for today is 'dream'. Discuss.

Ela fez uma pausa e depois
Imaginar. Ter uma visão. Olhar para a frente. Aprender com o que se fez ou não fez. Ter a coragem de criar a mudança.

Seth afastou uma madeixa de cabelo da cara dela. Olhos brilhantes como espelhos de rio. O anjo arrepiou-se:
Do you really believe in what you're saying?

Sim e geralmente eu sei, eu sinto. É como se ao ouvir dream me sentisse de facto na plenitude da luz ou no nevoeiro cerrado que encerra um mistério. Adoro essa vibração na palavra. Não gosto de névoa, de nuvens que ensombrem o sol, respondeu.

O anjo viu nos olhos dela uma faísca que conhecia. E então, disse:
Are you ready?

A mulher endireitou-se:
Sabes o que é não ter a menor partícula de dúvida, sabes o que é ver a beleza absoluta a oferecer-se aos teus braços, sabes o que é acabar com a mentira e ter uma semente de verdade nas mãos? Sim, estou pronta. Agora podes partir.

Wait, voltou ele.

Ela deu-lhe um beijo e disse-lhe ao ouvido:
Eu sei que estarás sempre aí. Mesmo que não te volte a ver.

A janela fechou-se.
O anjo ficou triste. Pela primeira vez em mais de trezentos anos, sabia o que era a tristeza, a sensação da possível falta. 
Ao sentir-se mais humano compreendeu que tinha terminado a sua missão. Pairou por uns instantes e depois não resistiu: sem fazer qualquer espécie de ruído, usando os seus dedos hábeis e esguios, reabriu a janela e ordenou à matéria que assim permanecesse, mesmo que a mulher a tornasse a encerrar. Foi apenas um pouco mas o suficiente. 
Seth nunca iria prescindir de vigiar o sono e a respiração tranquila daquela que amava.

domingo, 6 de outubro de 2013

verde salgado

A mulher entrou sozinha na festa que acontece todos os anos. Meio nervosa, sem saber o que esperar. Sem que ela nada fizesse as pontes foram-se criando, os amigos recentes, a mãe do amigo do filho, o anfitrião, a mulher do jantar. Era inevitável pensar mas a mulher não queria iludir-se: as pontes estavam lá mas os fios eram muito ténues, ou pelo menos ela via-os assim pela ausência. Talvez se tivesse esquecido, não suportava a ideia mas talvez fosse isso mesmo, um texto chamado black. A mulher abandonou a festa muito tarde. Confusa, não conseguia regressar a casa de imediato; dirigiu-se ao rio, olhou as águas e pensou que talvez tivesse sonhado toda a beleza. Então, os olhos dela transformaram-se num mar de água salgada que se derramou para dentro do rio. As águas ficaram mais verdes.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

ao meu filho Tomás


'Só preciso de cinco minutos.'

A mulher fechou a porta do escritório, voltou a sentar-se na cadeira, estendeu as pernas sobre a secretária, fechou os olhos e procurou um momento daquele dia na memória. Dezasseis anos voltaram atrás. 

Close up de barriga enorme, seguido de plano mais aberto sobre pernas de mulher sobre um pouf. As pernas tremem em solavancos. Imagem gira sobre si própria. Mulher ri em gargalhadas que não se deixam ouvir. Imagem dissolve-se, anda mais rápido. Um Fiat Cinquecento desloca-se sem grande velocidade numa madrugada  que parece quente pela luminosidade das ruas. As imagens atropelam-se de novo. Numa enfermaria, mulher segura recém-nascido nos braços.

Abriu os olhos e sorriu. Era certo. Aquela criança tinha nascido depois de um ataque de riso. Talvez por isso fosse tão excepcional. Ou talvez o fosse pelo amor com que tinha sido concebida, pela gravidez serena, ou apenas... porque sim. 

'Empurrei-te com gargalhadas e tu devolves-me sorrisos todos os dias. Obrigada meu anjo de dezassete anos.'

(Repeti o texto de outros anos mas esta é a minha memória eterna do nascimento do meu filho Tomás, uma das minhas obras mais perfeitas. Hoje faz dezassete anos e já me ensinou o que é o Projecto Venus, obrigou-me a revisitar David Bowie e música disco, sabe muito mais que eu de muitas coisas e é o miúdo mais generoso do planeta.)

linhas, pontos

Ela alinhavava. Cortava. Voltava a alinhavar. Cortava de novo. Escolhia outra cor, regressava ao preto, a sua cor preferida na superfície branca. As junções voavam na sua cabeça mais rápido que nas mãos. A mulher suspirava e voltava de novo. Por vezes, ficava satisfeita, noutras, as mais raras, as mais intensas, sentia os pontos longe. Quando o motivo vinha de dentro era sempre mais difícil encontrar a combinação perfeita. O sentido, a expressão, perdiam-se, odiava ser repetitiva, banal: como se preparava uma ternura imensa para ser cosida com mestria? 
Depois de tantos, depois de demasiados, aquele dia chegou. Um fio, delicado e macio, enrolou-se nos seus dedos. A mulher observou a magia e suspendeu a respiração. O fio foi percorrendo a pele das mãos, espreitou para dentro das roupas, descobriu todos os poros e abraçou-lhe o coração. Surpreendida com a rareza de não ter de fazer mais nada, fechou os olhos e saboreou, jurando a si mesma que apenas faria isso mesmo. Saborear. A costureira das palavras sabia agora que não era preciso explicar mais nada.


(A foto, maravilhosa, é do José D'Almeida e da Maria Flores.)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

balançar



Hoje preciso disto. Se segura no balanço, sim. Não esquente a cabeça, não. E, no meio de tudo, deixe-se levar pela percussão e relaxe menina, relaxa. Não há outra forma, hoje.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

fall


É Outubro. 
Nunca sei o que sinto nesta altura do ano, confesso. Entristece-me a partida do estio com os seus dias longos, a pele despida sem necessidade de capas, os perfumes libertos, a limpeza do mar. 
Contudo, o Outono chega e o abraço dos frutos quentes encanta-me. Chegam as castanhas nas suas mil e uma maneiras generosas, relembro e celebro o cozinhar de tantas compotas deliciosas no vagar sonolento das colheres de madeira, no odor a açúcar torrado, no deslizar de um dedo matreiro que rouba um pedaço.
Aproximam-se noites sossegadas em silêncios que se desenham no ritmo lento do crepitar da lenha, ou plenas de vozes e risos dos amigos que adoramos deixar entrar em casa e partilhar a nossa vida. É um facto: o Verão vive-se lá fora, o Outono, por dentro, deixando vir o frio devagarinho para que os corpos se ajustem a uma nova estação da vida. Talvez haja um sentido em tudo isto: quem não precisa de aconchego depois de demasiado tempo ao sol? 
Outono diz-se Fall, em Inglês. Escrever é uma espécie de Outono: uma forma de despedida, uma forma de renovação, deixar que as vísceras falem, se limpem e assim se cuidem, permitir que o coração caia, se despedace e reconstrua, dando mais espaço a momentos bonitos da vida, a tantos momentos absolutamente maravilhosos desta vida que vale a pena contar.