sexta-feira, 13 de setembro de 2013

brisa quase



A brisa entrou na praia, pediu muita desculpa à areia e disse que agora não a podia refrescar. Estava cansada. 
A areia tentou avisá-la mas a brisa, não querendo ouvir mais nada, escondeu-se no cantinho de uma concha branca e deixou vir o sono.

Brisa corre, corre feita vento doido, corre pelas estradas, varrendo espigas de trigo, pedaços de folha, pedras diminutas. O vôo, meteórico, faz a brisa-feita-vento-doido quase invisível de tão veloz, tremem as telhas dos telhados, abanam as portas e chaminés, rezingam os pássaros que voam sem querer usar as asas.
Um ruído cavo, profundo, grave, repetido, ouve-se ao longe. A brisa-feita-vento-doido abranda, e é quase-vento, quase-brisa, quase-silêncio. Avança devagarinho como o sopro de uma criança ou as patas de um gato, meio a medo. O som é seguro. A brisa-desfeita-de-silêncio enrosca-se no som e deixa-se rodopiar.

Estremeceu por dentro e acordou. 
Tonteira de sonho, pensou. 
Olhou para si e na realidade era brisa-dança.
O som sorriu.
Ela é que não quisera ligar á areia.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

rega do dia

Fazia calor. Um calor imenso.
A mulher passou de carro. Um pingo de água fresca molhou a pele do seu braço. Ela deu um salto e riu de si mesma pela surpresa. Reparou então nos aspersores que regavam as plantas sedentas. Nesse  preciso momento, Seu Jorge cantou diga eu ti amo e eu I lovi yuuuu, é um jeito quente, uma onda boa...
A mulher deu uma gargalhada, deu meia volta, espreitou e, ao não ver nenhuma possibilidade de ralhete, fez o que tinha a fazer: abriu as janelas do automóvel e deixou que a água refrescasse o carro por dentro. Seu Jorge sorriu na voz e disse 'Áuuuu'. Ela também.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

o sabor invisível de um gelado

A mulher reparou e a empregada também como as duas senhoras chegaram, de mansinho. Não viam nada, tinha-lhes sido negada essa capacidade. Pediram um iogurte gelado, entre gracejos e, sem hesitar provaram o primeiro bocadinho. As descrições eram maravilhosas como apenas alguém a quem foi retirado um sentido as pode fazer. Agradeceram e foram-se embora, de braço dado, tacteando o caminho. 
A mulher sentiu o nó na garganta e os olhos encheram-se de lágrimas. Olhou para a empregada e percebeu um estado igual. Riram-se as duas num gesto de profundo respeito pela vida. Há coisas tão mais sensíveis que o comezinho do dia-à-dia.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

viagem

O beija-flor adormecera a bordo. Quando o navio chegou ao destino, o ajustar das amarras provocou um solavanco e o pássaro despertou. Enervado, espreguiçou as asas, esticou as patas diminutas e preparou-se. O olhar dizia-lhe que se tratava de um local desconhecido; o instinto avisou que era melhor escapar. Mas havia um certo perfume no ar. E a luz. O beija-flor levantou o pescoço, era impossível desistir. Voou então depressa, descobrindo um rio de prata, edifícios exagerados de branco por uma luz que se abandonava à reflexão de forma generosa. O colibri redobrou a velocidade e aí descobriu a avenida das árvores mais bonitas que alguma vez havia visto. Aquela era a origem do perfume doce e violeta, como eram violetas as cores das flores que invadiam as árvores. O beija-flor soube então que estava irremediavelmente apaixonado. Pousou. Uma borboleta amarela segredou-lhe o nome; duas penas do seu pequeno corpo mimetizaram de imediato a cor lilás. O insecto avisou que depois do violeta chegaria o verde, e depois do verde, a ausência, o frio. O pássaro não quis saber; afinal, a vida era curta. Levantou vôo, beijou cada uma e todas as flores da avenida e adormeceu. Valia a pena. Em Lisboa, valia sempre a pena o amor.

domingo, 8 de setembro de 2013

água doce

Azul escuro. Azul noite. Azul quase negro. Azul profundo. Tinha sido assim a sua noite. A primeira em muito tempo sem se sentir suspensa numa rede delicada e demasiado frágil. A primeira em muitos dias de abandono perfeito ao sono. E porquê? A mulher amava a verdade. Todas as verdades, aliás, das mais bonitas às mais feias, das mais difíceis às mais fáceis, mas sempre verdade. A falta dela tornava-a rouca, tirava-lhe a capacidade de cantar, um aperto insuportável no peito instalava-se e a única varanda possível era a que lhe permitia mergulhar no mar. Da verdade. Hoje, a mulher era a sobrevivente de um mergulho consciente que a levara até às mais escuras profundezas, sem sombra de quaisquer medos porque era por si, tinha sido apenas por si e estava consigo. Inteira.
Na metáfora perfeita dessa noite, retirou do corpo pequenos pedaços de algas de todas as cores e acariciou as queimaduras dos vários corais de fogo. Passou os lábios pela pele dos braços e, ao sentir o sal, pensou que era o momento. Chegara o momento merecido de um beijo de água doce e macia. Um beijo longo. Para sempre.

sábado, 7 de setembro de 2013

paz

Começou miúda, miudinha, com pequenas gotas alterando a superfície lisa e quente, deixando notas de humidade ligeiras. Teimosa, ignorou a brisa e insistiu. Pequenas comportas abriram-se e, ao sentir poder, metamorfoseou-se numa torrente silenciosa mas persistente. A tempestade sobreveio arrastando tudo à passagem. A brisa pareceu perder o norte mas de súbito reconheceu a água e alinhou. 
Veio o silêncio; tão imenso que a brisa pensou ter-se transformado em vento. Calou-se, então. A paz da verdade solitária tinha chegado.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013