A mulher riu. Riu até doer a pele da cara, riu até as lágrimas caírem, sem vergonha, arrastando tudo na passagem. Quando se ria assim, sabia a partida de crianças, ao cheiro da relva fresca recém-cortada, a gelado de limão com champagne, a dedos que tiram bocados de mousse de chocolate em segredo, ao riso dobrado de um bebé. Rir-se desta forma, pensou ela, era voltar de novo á sua essência, à sua verdade descontraída e virada para fora, aberta ao mundo. Numa segunda-feira e na primeira segunda-feira de trabalho depois de férias, era uma dádiva. Sorte era isto mesmo. A mulher não encontrou palavras suficientes para agradecer mas descansou; sabia que a sua gratidão não precisaria disso para ser compreendida.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
domingo, 25 de agosto de 2013
(último) diário de bordo - excertos inesquecíveis III
"... and I would like to ask you, as best as I can, dear Sir, to have patience towards everything that is unresolved in your heart and try to love the questions themselves like locked rooms or like books that are written in a remote foreign language. Do not search now for answers that cannot be given to you because you would not be able to live them. And everything has to be lived. Live the questions now. Perhaps you will then gradually live your way, without noticing, into the answer some day. Perhaps indeed you have the capacity to educate and develop others as an especially happy and pure way of life; train yourself for this - but accept what comes in great trust, and as long as it comes from your will or from some innermost need, take it on yourself and hate nothing. Sex is difficult, yes. But it is a difficulty that is imposed on us; almost everything serious is difficult, and everything is serious. If you can only recognise that and manage to attain a relationship to sex that is entirely your own (not influenced by convention and custom) from your own inner disposition and nature, your experience and childhood and strength, then you will no longer have to fear losing yourself and becoming unworthy of your greatest possession.
Bodily pleasure is a sensual experience that is no different from pure looking or the pure sensation with which a beautiful fruit fills the tongue; it is great, infinite experience that is given to us, a knowledge of the world, the wealth and splendour of all knowledge."
Rainer Maria Rilke in Letters to a Young Poet
(Excerto retirado de uma das minhas 'cartas' preferidas, a carta de 16 de Julho de 1903. Uma boa maneira de fechar estes diários de férias, pareceu-me.)
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
diário de bordo - amanhã
Certos dias secam tudo. E secando a capacidade de proferir uma palavra como poderão não secar a possibilidade de escrever? Há sempre amanhã. E com ele, virá o mar. Hopefully.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
diário de bordo - papoila
Na praia soprava uma brisa, como todas, querendo ser suave e temperando o calor. O mar, em vagas pacíficas e largas, chamava. A mulher deixou-se estar, imaginando, a água tinha sempre nela um efeito poderoso. Uma onda, depois outra e mais outra. Deu por ela a mergulhar de corrida, sorrindo, como se tivesse menos trinta anos e a vida fosse mais ligeira. Esqueceu tudo e deixou-se voar por momentos cheios de palavras doces e gentis que denunciavam o despertar pelo que há muito ansiava. Dentro de água, uma papoila imaginária flutuou e quis beijá-la de forma delicada. A mulher fechou os olhos e ofereceu-lhe a sua pele macia.
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
diário de bordo - o descanso de Rilke
Os livros são pessoas. Alguns deixam-me indiferente, outros enervam-me ao ponto de os deitar fora (literalmente, não sou capaz de oferecer um livro que não aprecie, seria como apresentar alguém desprezível), e depois existem aqueles por quem me apaixono ao ponto de os guardar com mais ternura e cuidado do que os que empregaria noutro objecto, por muito valioso que fosse. Não é fácil dizer adeus a um livro destes.
Além das histórias, dos personagens, das viagens, os livros tocam, mexem com sentimentos e lembranças, despertam dúvidas, fomentam a descoberta ou trazem sintonias maravilhosas que são autênticas comunhões de alma. Por isso são tão difíceis de abandonar. Eu acabei dois assim. E quando isto me acontece, sei que não posso de imediato entregar-me a um possível novo enamoramento, apenas há uma solução, voltar a uma antiga paixão para fazer um intervalo e ganhar fôlego. Assim será hoje. Retorno às Cartas a um jovem poeta que, espero, me farão enfrentar Rayuela de Cortázar, com tudo o que merece.
terça-feira, 20 de agosto de 2013
diário de bordo - excertos inesquecíveis II
"A compensação de se envelhecer, pensou Peter Walsh ao sair de Regent's Park, de chapéu na mão, era simplesmente aquela: as paixões continuam tão fortes como sempre, mas obtemos - finalmente! - o poder de adicionar o sabor supremo à existência - o poder de apreendermos a experiência, de a fazermos rodar, lentamente, sob qualquer luz."
Mrs Dalloway, Virginia Woolf.
diário de bordo - excertos inesquecíveis
"E - continuou ela - , há outra coisa que acabará por descobrir por si próprio. Há no amor alguma coisa (não direi que seja um defeito do amor porque o defeito está em nós próprios), mas qualquer coisa que não compreendemos na sua natureza. Por exemplo, o amor que sente por Justine não é um amor diferente por um objecto diferente, mas o mesmo amor que sente por Melissa tentando realizar-se através de Justine. O amor é terrivelmente permanente e cada um de nós só tem direito á sua pequena porção. Pode aparecer sob uma infinidade de formas e prender-se a uma infinidade de pessoas. Mas é limitado em quantidade, e não pode esgotar-se e desaparecer antes de alcançar o seu verdadeiro objecto. O seu sentido oculta-se algures, nas mais profundas regiões da alma, onde acabará por se reconhecer como o amor de si, o terreno sobre o qual construímos uma espécie de saúde da alma. E isto não é egoísmo nem narcisismo. "
Clea em Justine, de Lawrence Durrell
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