segunda-feira, 22 de julho de 2013

a forma original

Sentia-se como um caranguejo: dois passos à frente, dois passos atrás. Por vezes sem ar de tanto estar confinada a um buraco, outras vezes demasiado exposta, demasiado pequena. Ainda por cima, não conseguia falar. Era chato começar a semana como se de um caranguejo se tratasse. Mas não havia nada a fazer; apenas esperar que viesse a noite e o sono a transformasse de novo na forma original. Qual era? Hoje, não tinha a certeza.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

the birds and the bees, the ladybugs and the dragonflies





Bom fim de semana.

(Ilustração de Ricky Watts, street artist que descobri recentemente. Chama-se Symphony of Perception, um título bonito que é também um bom aperitivo para descobrir o resto.)

quinta-feira, 18 de julho de 2013

por incrível que possa parecer

As quatro amigas juntaram-se no restaurante, trocando abraços e alegria de se ver. Pediram quatro gins diferentes, todos pintados com frutas, especiarias e água tónica de borbulhas micronésimas, como as do melhor champagne. Pediram petiscos do hemisfério Norte e do hemisfério Sul e, entre pratos, cigarros e risos, trocaram cerca de trezentos minutos de conversa. Por incrível que possa parecer, não saíram do restaurante e o resto do mundo quase desapareceu, a  não ser o mundo delas, partilhado em alguns momentos com humor, noutros com seriedade. É difícil crer que não precisem de ir beber copos a outro sítio, não precisem de ver gente, inebriar-se mais um pouco. O facto é que não precisam mesmo, basta-lhes aquilo que aprendem umas com as outras, nem que seja por uma expressão mordaz, ou um nome ridículo que arranca uma gargalhada e se mantém como mote para o resto da noite.
Graças a isso, hoje a mulher tem aquela moinha no estômago e pouca vontade de falar. No entanto, não se queixa, apenas aplica à circunstância a frase feita do há males que vêm por bem; é o caso.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

para a isabel pinto



Nunca percebi a loucura das fotografias. Ou melhor, respeito e compreendo a loucura das fotografias enquanto registos, memórias. Mas sempre me aconteceu ficar com a câmara estacionada num lugar qualquer. Tenho a eterna sensação de que os olhos perdem sempre um instante precioso na preocupação da foto, na tensão da pose ou da captura do momento. Os olhos registam muito mais, registam acima de tudo a naturalidade do nanosegundo, não precisam de mais lente ou mais filtro. Na minha vida, os meus olhos já capturaram coisas incríveis que ficaram registadas de modo definitivo na minha memória; sem possibilidade de se estragarem com o tempo, precisarem de ser reveladas ou ficarem perdidas num computador qualquer. É certo que assim a partilha não é tão poderosa. Será? Será que a descrição de uma imagem não a torna ainda mais bonita? Acho que sim. E depois, há todas as imagens que são apenas nossas, a imensidão da nossa privacidade, linda por isso mesmo, ser apenas nossa. Daquilo que me comove realmente, me toca e me agita, não quero tirar fotografias, não sei, admito. Por isso admiro os raros fotógrafos que conheço e que conseguem isso mesmo: dar a uma fotografia o poder e a intensidade da vida real.

(a imagem foi roubada à Daniela Mertens)


terça-feira, 16 de julho de 2013

sem úlceras, sem espinhas



É fácil. É aparentemente tão fácil pintarmos outras personalidades, transmutar-nos em outros seres mais atraentes, mais diferentes, mais ousados, mais sensíveis, supostamente mais interessantes, de acordo com o ouvinte que queremos conquistar. Mas não há pachorra, nunca tive pachorra. O trabalho que isso dá. E depois, à noite ou de manhã bem cedo, diante do espelho, sem pintura nem cabelo bem arranjado, vem a imagem bem definida de um mentiroso. Qual é o gozo? As consequências da carga? Nã. Não é para mim. Talvez por isso a minha lista de amigos verdadeiros conta-se pelos dedos das duas mãos, as pessoas que me apreciam de facto talvez caibam em mais duas. Mas a isso eu chamo estrutura. Sólida e verdadeira. Sem úlceras. Sem espinhas.

(o grafitti, fantástico, é de DOLK)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

cantankerous git

O jantar de amigos estava na fase do pós-café quando as defesas e algum do pejo já se quebrara, graças ao poder tranquilizante do alcoól ou ao reaproximar de pessoas que não se vêem há tempo e que, por isso, precisam de retomar o contacto, desbravando o terreno do óbvio para chegar (ou não) a territórios mais interessantes.
Lá fora, a mulher estava tranquila, sentia-se em casa, uma sensação que lhe era grata e que fora crescendo nas horas, à medida que se ia sentindo ausente de avaliações e da observação que muitas vezes provocavam a sua fuga física ou mental dos espaços. 
O homem e outra mulher sentaram-se ao lado dela. A conversa começou com um elogio de escrita, ela ficou sem saber o que dizer; e depois, ele, de forma gentil, esticou-a, repreendeu-a, queixou-se das histórias que o deixavam em suspenso e com vontade de ler mais. A mulher ouviu e agradeceu baixinho, quase calada porque a generosidade era algo que sempre a deixava em silêncio. Críticas construtivas são raras neste mundo, assertividade desinteressada ainda mais, ela tomava ambas como dádivas a interiorizar e respeitar. O homem desculpou a sua ousadia descrevendo-se como cantankerous git, uma expressão que ela não ouvia desde os tempos da escola inglesa. Ela pensou que ele gostava de se ver como o rezingão que não era.
De forma hábil, a mulher sacudiu o pó de fada, deixando apenas os pedacinhos brilhantes que contribuiriam para mais alento. Dirigiu a conversa para aqueles que considerava como verdadeiros escritores e suspirou de alívio no agarrar do isco por parte dos outros dois; aliviada, observou como se iam afastando dela enquanto veículo responsável de palavras e histórias, dando espaço a que ficasse dentro da sua bolha, de novo.

Lá dentro, cantavam e ela cantou também, por dentro. Exactamente como pretendia, como muito bem sabia fazer, ninguém viu.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

não serviu de nada

O miúdo, contrariado, gritava em prantos, como se estivesse no São Carlos a querer chegar com o seu drama á última fila. As lágrimas saltavam dos olhos como nos desenhos animados, a voz saia num volume semelhante ao máximo da televisão. A mãe, teimosa, quisera cortar-lhe o cabelo perante a ameaça saltitante dos pequenos seres diminutos que por vezes povoam a cabeça dos mais pequenos e se contagiam aos mais velhos (a mãe sabe porque já passou demasiadas vezes por isso). Com a máquina na mão, foi-lhe cortando o cabelo, os gritos transformando-se cada vez mais em berros, cada vez mais estridentes. A mãe foi elevando o tom de voz e, no limite do desespero, dois tabefes espalmaram-se na criança.
Não serviu de nada, o miúdo insistiu e gritou ainda mais alto, a vizinhança toda certamente pensou em violência doméstica ou outras brutalidades.
Não serviu de nada, apenas para que a mãe que sou eu, hoje se sinta culpada e tenha vergonha. É que os miúdos têm direito a descontrolar-se e perder todas  as estribeiras; as mães, enquanto adultas que são, têm o dever do controle. E não serve de nada a explicação depois, os abraços ternurentos e o pedido de desculpas pela estupidez de dois açoites. A culpa mantém-se cá e nestas situações torna uma mãe numa criança descontrolada. Esse não é o seu papel nem exemplo nenhum.