O meu pior defeito é a impaciência, disse a mulher, pendurada ao telefone. A internet emudecera. Era daquelas situações que a punham fora de si, a faziam sentir-se pouco inteligente, perdendo horas e mais horas em chamadas com interlocutores de voz simpática e condescendente que faziam perguntas estrambóticas para ela sobre cabos de rede, painel de comandos ou a que windows está ligada, quando na verdade ela preferia usar os equipamentos da maçã, mais lindos que todos os outros, mais fáceis de usar que todos os outros, mas, numa situação de avaria (igual a pânico), tão complicados como todos os outros. Depois de uma hora literalmente pregada ao auscultador, a questão resolveu-se da maneira mais estúpida do mundo, o verdadeiro cliché de sempre da informática: desliga tudo e torna a ligar. Se ela já o tinha feito? Sim, sem resultado. Mas a diferença era o tudo. Ela, a analfabeta das ligações desligara apenas uma parte. Não há mesmo paciência, pensou.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
a volta
Desfizemos as malas e arrumámos tudo. O nosso espaço, recém-acordado da sonolência do seu descanso sem a família, acolheu-nos, cheirando a limpeza e frescura. Mais tarde, quando todos dormiam, cirandei pela casa. Descalça, muito devagarinho, abri as portas para o jardim para não acordar os cães e respirei a noite na minha cidade. Como eu sempre disse e tornarei a dizer a beleza das férias não é apenas o durante; é o antes, o durante e o depois. É muito bom estar de volta.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
leituras de verão V
A intenção era boa. Sair dos géneros, fazer um intervalo, mergulhar nas águas do bom entretenimento. Assim me dispus a entrar de cabeça num livro mais descomprometido, Os seis suspeitos de Vikas Swarup. Depois de 50 páginas, sucumbi à impossibilidade da sua leitura. É muito mau, cheio de previsibilidade, personagens que são clichés, nem sequer o ritmo prende. Longe de poder oferecer o suspense ou a trama urbana de uma saga como a de um Millenium, chega a ser pretensioso na veleidade de querer ser um policial. Usando a belíssima regra de Daniel Pennac votei-o ao abandono e entrei num dos mais recentes de Peter Carey. À terceira página, dei por mim a sorrir.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
leituras de verão IV
A Fera na Selva, a novela de Henry James que li ontem num sopro, é irritante. Irritante porque nos incomoda, irritante porque faz sentido, seja qual for a época. Uma história simples, conduz-nos à constatação de quantos de nós não vivem esta vida porque simplesmente não se permitem senti-la. Em permanente defesa, fechados nos seus casulos, separam-se da existência e, ao fazê-lo, erram por ela. Perturbador, este livro ameaça: afinal, será que todos não deixamos de viver por um momento que seja? A guardar na mesa de cabeceira, como forma de prevenção e retorno.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
leituras de verão III
- Os mapas deles só desenham as costas. Têm um mar vazio.
- E como é que pensas fazer para encher esse vazio?
- Ponho lá a direcção dos ventos e das correntes, que são as estradas do mar. Ponho lá a força destes ventos e destas correntes, que dão a velocidade dos barcos, porque no mar, quem anda são as estradas. Ponho lá as cores da água, que dizem as profundidades. Ponho lá a forma das núvens que anunciam tempestades.
- E como vais ficar a saber tudo isso?
- Terei navegado por todas. Ficar em terra é uma perda de tempo.
(...)
Erik Orsenna in A Empresa das Índias
Este verão tem sido pródigo em bons conselhos de leituras. Este livro de Erik Orsenna que terminei ontem, é mais um deles. O romance histórico é um dos meus géneros favoritos talvez por ter crescido numa fase em que em Portugal a história parecia vergonha e em vez de ser contada com fantasia de reis e princesas, dava-se a crianças de onze e doze anos uma perspectiva sociológica da mesma, com especial relevância para a luta de classes... Enfim, uma história confusa e que não perdurava na memória ou muito menos na imaginação. A Empresa das Índias conta Cristovão Colombo nas memórias do seu irmão Bartolomeu, e é sobretudo a parte do Descobridor que não conhecemos, o antes das caravelas que o levaram às Índias que sonhava e que depois revelaram ser outro continente bem diferente. Muito bem escrito, prendendo a atenção desde a primeira página, é aquilo que o ensino da História deveria ser: empolgante, divertido, com ingredientes que perduram na memória para todo o sempre.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
leituras de verão II
Serra Morena. Um ráio esturrica o casal, em luz e carne. Os filhos ficam orfãos, com destinos diferentes. Antônio, o menino que não cresce. Nico, o patriarca engolido por um bule de café. Júlia, a menina em fuga permanente. Um lugar onde as sombras da terra e da água convivem. Onde a morte e a vida são o mesmo mundo. Um poema seco à humanidade de cada um de nós.
Assim é descrito na contracapa o livro Os Malaquias. Se o resumo espicaça curiosidade, a história, pejada de originalidade e de um ritmo vigoroso, impede refrear a cadência da leitura, abrindo-se numa voragem incessante que não pemite uma paragem sequer. Talvez uma das melhores obras que li este ano, pela diferença, pela beleza das imagens, pela coragem em sair do esterótipo ou do 'permitido' na literatura. Este é o género de ousadia de escrita ao qual eu adoraria chegar.
(obrigada, Bé!)
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
leituras de verão I
Patti Smith era um dos meus ídolos numa adolescência mais tardia. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que a ouvi: a Patti era muito mais que rock & roll. Na festa de garagem da Luisinha, os acordes iniciais de Because the night fizeram-se ouvir e um grande amigo, que sabia como as palavras eram importantes para mim, disse, tens de ouvir isto. Fiquei embasbacada com o sentido das frases, aquilo era muito mais que música ou, por outra, dava mais grandiosidade a esta última. A partir desse momento não descansei enquanto não soube mais sobre a autora. E, na verdade, apenas agora sei estar mais perto. Apenas miúdos é a história de Patti Smith, mais precisamente a história da sua relação com Robert Maplethorpe. Devorei-a em menos de três dias, fascinada com tudo o que não sabia e com esta coisa maravilhosa de quando o real supera a ficção. A não perder.
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