Estou na recta final, pensou a mulher, faltam-me dois cagagésimos para chegar ao fim e a preguiça ultrapassa-me. Os cagagésimos resumiam-se a um trabalho individual e um exame de peso, dali a quatro e sete dias, respectivamente. Vais deitar um ano a perder?! Lentamente, como um caracol que se estica e desenrola para sair da casca, a mulher começou a ler os materiais. Sentia-se como uma tartaruga a ter que percorrer um longo caminho não no mar mas em areia seca e demasiado fina. Tinha que ser e este tinha, tinha muita força, a tartaruga não se queria enterrar.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
segunda-feira, 9 de julho de 2012
deixa-te estar quieta
sexta-feira, 6 de julho de 2012
novo mundo
O mundo já não é o que era. Para muitos, esta será uma visão pessismista. Eu, não consigo vê-lo dessa forma. Com todas as convulsões, acredito que tenhamos aprendido a criar nas nossas vidas menos desperdício, tendo mais prazer e mais consciência naquilo que consumimos, ficando mais livres de pressões materiais e mais atentos a valores humanos. Onde muitos vêem poucas oportunidades, eu consigo achar que é possível descobrir algumas. Onde alguns observam apenas o mal, eu vejo empresas a criarem alianças assentes na confiança, nas trocas, em parcerias verdadeiras, muito longe do bullshit da nomenklatura do marketing, típico das duas décadas anteriores. Visão naif, demasiado optimista, a minha? Alguns dizem-me que sim. Mas não consigo ver as coisas de outra forma. Talvez porque desde o início do ano decidi impermeabilizar-me contra a desgraça militante e generalizada, não assistir a telejornais, retirar da minha vida aqueles que não me querem bem de verdade, mimar muito e muitas vezes todos os que me amam seja com que matizes for e focar-me em absoluto naquilo que quero e gosto de fazer. O meu marido diz que eu sou uma espécie de nómada. Porventura é verdade. Sempre acreditei que às vezes é preciso separar-nos do mundo que conhecemos para descobrir outros mundos bem melhores. Para mim, isso é viver. E este é um verbo que eu adorarei até morrer, nada nem ninguém me poderá tirar isso.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
em boas mãos
Eram perto das nove da noite quando a médica recebeu a criança, acompanhada da mãe e do pai. Com o carinho do costume, observou o rapazinho da cabeça aos pés, diagnosticou uma virose chata, o miúdo entre risos, estetoscópios transformados em auscultadores do coração, instrumentos de observação dos ouvidos metamorfoseados em contadores de namoradas, espátulas de garganta recriados enquanto objectos de cócegas. Os pais foram descansando a preocupação, objectivando as dúvidas com a segurança rara de quem sabe estar em muito boas mãos. À saída, a mãe comentou:
- É incrível como a conheço desde os tempos do meu filho mais velho e mantém essa boa disposição mesmo a esta hora da noite.
Com um sorriso do tamanho do mundo, a medica respondeu:
- Mas não é suposto...? Eu estou a fazer exactamente aquilo de que gosto!
Era uma grande sorte, pensou a mãe. Ainda existem médicos assim.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
formas de estar
As duas mulheres entraram no edifício. Na recepção, não precisaram de dizer nada uma à outra: os tectos baixos, as paredes forradas de madeira escura, a iluminação artificial, fizeram as vezes das palavras. As mulheres seguiram o homem gordo, a mais crescida como se tomada de uma velocidade súbita e fechando a cara, a outra entre uma vontade irreprimível de rir e um sufoco que se avolumava na garganta e no peito. Por fim saíram á rua, dando graças ao sol, ao oxigénio e a uma vida que existia fora daquelas paredes. Uma pequena dor de cabeça tinha contudo vingado. Na verdade era normal, disse uma delas, tinham por momentos sentido a sensação de estar fechadas num caixão, em vida. As duas concordaram que muitas empresas eram mesmo assim. E essa não era em definitivo, a forma de estar de nenhuma das duas: sabiam que no momento de partir preferiam ser lançadas em cinzas ao vento ou ao mar.
segunda-feira, 2 de julho de 2012
coisas feias
Quando coisas feias acontecem à nossa frente e nada podemos fazer, é horrível. É uma sensação de impotência horrorosa que se traduz, ao final dia, numa dor de cabeça dos diabos. Talvez seja a maneira que o corpo encontra de cuspir a fealdade do mundo. Irra.
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