Na televisão, os medos do mundo ameaçavam, procurando cumprir a tarefa diária de agitar o ser humano, deixá-lo sem acção, bloquear. Irritada, pegou no comando e tirou o som. Tudo ficava muito diferente sem as palavras, bastante ridículo até, poderia dobrar-se com vozes de um qualquer discurso, até de amor. Não contente com isso, a mulher desligou também a imagem.
Sentada no sofá, escutou o silêncio, o som de uma pausa merecida. Por momentos, reviu todos os instantes daquele dia passado a correr, sentiu-se plena. Era certo que alguma vez já fora mais rica em substâncias materiais, clara e abundantemente mais rica. Mas agora sabia como oferecer mais riqueza a si mesma por saber de forma exacta onde se encontrava o seu centro, a sua voz, e respeitá-la. Tinha-lhe custado muitos anos chegar ali; por ironia, e em contrapartida, custara muito pouco daquilo que compra as coisas materiais. Nesse momento, o filho mais velho desceu e deu-lhe um beijo de boa noite. Ela olhou para ele e agradeceu mais outra riqueza que apenas se compra com saúde e respeito e que nos devolve mais riqueza quando a ajudamos a rechear-se de amor por si mesma. A mulher deixou-se estar e saboreou.