O miúdo mais velho voltou do jantar com o pai era perto das onze da noite. Ela acolheu-o à porta de casa e reparou no sorriso de ambos. Curiosa, deixou cair uma espécie de pergunta sobre o jantar. O filho respondeu lacónico, mantendo o sorriso: 'foi um jantar animado, sim'. Ela remeteu-se à ignorância em que sabia que iria ficar, gostou muito daquela cumplicidade assumida. Quando a relação entre pais homens e filhos rapazes é saudável, existem momentos de igual modo saudáveis e muito recomendáveis em que, verdadeiramente, menina não entra.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
terça-feira, 11 de outubro de 2011
venham mais cinco
A senhora, a quem ela chamava Audrey por dentro, tinha acabado a consulta. Agora podia obedecer aos beliscões da preocupação de todos os seis meses: telefonou-lhe. Do lado de lá, a voz soou segura, a médica achara-a muito bem, 'Mercedes nem parece que tens oitenta e um anos', dissera-lhe. A melhor notícia veio depois no tom desafiante com que acrescentou
Sabes, filha, em Novembro já faz cinco anos.
Soava vitoriosa a frase. Pudera. Cinco anos. Como o tempo passa depressa e suave, suave, devagarinho, nos faz esbater o horror de uns dias com a iminência de um fim que não se sabe quão perto está até que o motivo do medo toma forma, se retira e se mata. Contudo, a incerteza do até quando, persiste e dura, ano após ano. Por isso precisamos destas metas médicas, da medalha de ouro dos cinco anos. Aí respiramos de alívio, ainda que saibamos não serem garantia de muita coisa mas apenas quando se quer, quando se ama verdadeiramente a vida mais do que a vontade de descansar.
Ligeira, a sua Audrey despediu-se e desligou a chamada.
Imaginou-a no comboio a caminho da sua casa no sul, os eternos cigarros (que apenas ela fumava daquela forma) guardados na carteira, as mãos compridas e lindas desfolhando as páginas de um livro, em cada uma deixando para trás pedacinhos de medo, em cada linha agradecendo a um pulmão e meio que desde aquela época valiam por dois.
Venham mais cinco assim, pensou.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
e ficar com um sorriso a semana inteira
É possível tratar temas difíceis do nosso mundo de forma delicada e invulgar.
É possível comover e fazer sorrir em simultâneo, também.
É possível ser artista sem ser intelectualóide ou apenas inconsequente, e fazer a diferença.
É possível comover e fazer sorrir em simultâneo, também.
É possível ser artista sem ser intelectualóide ou apenas inconsequente, e fazer a diferença.
Tudo isso é Vik Muniz e se perderem a exposição dele no CCB é uma verdadeira pena.
Eis uma pequeníssima amostra feita de bocadinhos de papel, açúcar, lixo e soldadinhos de plástico. Só isso já diz muita coisa.
Eis uma pequeníssima amostra feita de bocadinhos de papel, açúcar, lixo e soldadinhos de plástico. Só isso já diz muita coisa.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
seu olhar
Deu por si a ouvir vezes sem conta Seu olhar de Seu Jorge. Música sexy, essa. O fim de semana começou a entrar, devagarinho, cheio de jeito quente e bom. Ela sorriu, relaxou e deixou-se ir.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
um pouco mais acima
Desligou o telefone e um travo amargo emergiu. Sentiu-se parva, muito parva, uma perfeita tonta. Os sinais tinham lá estado, cada vez mais patentes, em cada ocasião mais presentes, ela tinha-os visto e não quisera saber. Desta vez, tinha ligado com saudades, o motivo era um sonho com a amiga sempre ocupada, como se fosse preciso um sonho para contactar quem se gosta. A amiga respondera em jeito blasée, enchera a linha telefónica com as suas mil ocupações, viagens e sucessos. Do lado de cá, a mulher foi ficando pequena, diminuída, estreita, minúscula, até se tornar insignificante nas palavras da outra. Desligou então o telefone e ficou triste. Deixou-se viver a mágoa, olhou-a de todos os lados, limpou-se dela e finalmente concluiu a mesma verdade que aprendia de cada vez que tinha desgostos de amizade: às vezes é preciso deslocar certas pessoas para uma prateleira mais acima, mais longe do coração. A simples constatação, ajudou. Respirou fundo e seguiu a sua vida sem mais amargura. E com menos uma ilusão.
(A ilustração maravilhosa é de Yusuke Yamada. Obrigada, querida A.R.)
terça-feira, 4 de outubro de 2011
quatro de outubro
'Só preciso de cinco minutos.'
A mulher fechou a porta do escritório, voltou a sentar-se na cadeira, estendeu as pernas sobre a secretária, fechou os olhos e procurou um momento daquele dia na memória. Quinze anos voltaram atrás.
Close up de barriga enorme, seguido de plano mais aberto sobre pernas de mulher sobre um pouf. As pernas tremem em solavancos. Imagem gira sobre si própria. Mulher ri em gargalhadas que não se deixam ouvir. Imagem dissolve-se, anda mais rápido. Um Fiat Cinquecento desloca-se sem grande velocidade numa madrugada que parece quente pela luminosidade das ruas. As imagens atropelam-se de novo. Numa enfermaria, mulher segura recém-nascido nos braços.
Abriu os olhos e sorriu. Era certo. Aquela criança tinha nascido depois de um ataque de riso. Talvez por isso fosse tão excepcional. Ou talvez o fosse pelo amor com que tinha sido concebida, pela gravidez serena, ou apenas... porque sim.
'Empurrei-te com gargalhadas e tu devolves-me sorrisos todos os dias. Obrigada meu anjo de quinze anos.'
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
domingos com a família
Pode jogar o Benfica com o Porto. O Presidente pode resolver dar outra entrevista ou o Estado resolver prender de novo alguém importante. O FMI pode tentar entalar mais alguém. Gravem tudo o resto, os telefones ficarão por obrigação no silêncio, porque a partir das 22.10h, aos domingos, a televisão é minha para ver Uma família muito moderna. Não prescindo desta série. Maravilhosamente bem escrita, já me arrancou gargalhadas e também uma que outra comoção no sofá. É humor inteligente com personagens construídos de forma magistral (hoorray for Cam & Gloria!),muito bem vindo quando o fim de semana acaba e uma nova semana está prestes a começar. Um verdadeiro bálsamo.
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