terça-feira, 4 de outubro de 2011

quatro de outubro

'Só preciso de cinco minutos.'

A mulher fechou a porta do escritório, voltou a sentar-se na cadeira, estendeu as pernas sobre a secretária, fechou os olhos e procurou um momento daquele dia na memória. Quinze anos voltaram atrás. 

Close up de barriga enorme, seguido de plano mais aberto sobre pernas de mulher sobre um pouf. As pernas tremem em solavancos. Imagem gira sobre si própria. Mulher ri em gargalhadas que não se deixam ouvir. Imagem dissolve-se, anda mais rápido. Um Fiat Cinquecento desloca-se sem grande velocidade numa madrugada  que parece quente pela luminosidade das ruas. As imagens atropelam-se de novo. Numa enfermaria, mulher segura recém-nascido nos braços.

Abriu os olhos e sorriu. Era certo. Aquela criança tinha nascido depois de um ataque de riso. Talvez por isso fosse tão excepcional. Ou talvez o fosse pelo amor com que tinha sido concebida, pela gravidez serena, ou apenas... porque sim. 

'Empurrei-te com gargalhadas e tu devolves-me sorrisos todos os dias. Obrigada meu anjo de quinze anos.'


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

domingos com a família



Pode jogar o Benfica com o Porto. O Presidente pode resolver dar outra entrevista ou o Estado resolver prender de novo alguém importante. O FMI pode tentar entalar mais alguém. Gravem tudo o resto, os telefones ficarão por obrigação no silêncio, porque a partir das 22.10h, aos domingos, a televisão é minha para ver Uma família muito moderna. Não prescindo desta série. Maravilhosamente bem escrita, já me arrancou gargalhadas e também uma que outra comoção no sofá. É humor inteligente com personagens construídos de forma magistral (hoorray for Cam & Gloria!),muito bem vindo quando o fim de semana acaba e uma nova semana está prestes a começar. Um verdadeiro bálsamo.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

escrevo porque gosto que me leiam


Olho para o contador e constato: mais de 10.000 visitas ao meu blog. Não quer dizer nada, eu sei, existem outros que têm muitas mais, não é o número em si que me importa. É o simples facto de saber que existem pessoas que gostam de me ler. Não vou ser modesta, nem fingir o contrário: fiquei feliz. Eu escrevo porque gosto que me leiam, dizer outra coisa seria pura hipocrisia. Muito obrigada a todos. 

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

desculpa

Zanguei-me contigo hoje de manhã e não gosto. Até tinha razão, mas não gosto(a razão é tudo menos relevante para estas coisas do coração). Não gosto de te deixar assim, mesmo sabendo que te passa mais depressa que a mim, mesmo espreitando por entre as sebes e observando que brincas como se não fosse nada. O único consolo é saber que às vezes é preciso, que um dia me agradecerás estas pequenas frustrações que te preparam para o mundo que não é igual à nossa casa por dentro. Deixa-me então dizer muito baixinho para que não me ouças: desculpa este papel de polícia mau que tenho de vestir algumas vezes. Ele é a diferença entre ser mãe e amiga. Estas lides da paternidade são tramadas, sabes? À diferença de muitos outros aspectos da vida, aqui temos de escolher um dos papéis. Eu escolhi o de ser mãe para com os meus filhos. É duro, é mais solitário mas ensina, dá confiança, prepara. Bolas, o quanto por vezes gostava de ser apenas amiga. Fica para quando for avó, prometo, isso ninguém me vai tirar.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

o rapaz da terra do nunca

Naquele final de tarde, a mulher sentia-se particularmente cansada. Uma noite mal dormida, muitas viagens de carro, a sensação era de colchão sem ar. Ainda faltavam contudo três horas para o dia acabar. Sem fome, obrigou-se a comprar um lanche para se obrigar a repor alguma coisa. Na volta para o escritório, encontrou o Rapaz da Terra do Nunca. Ele fê-la deter-se para lhe agradecer as palavras que ela escrevia todos os dias. A mulher comoveu-se por dentro e não soube exprimir o que queria. Mas graças aos senhores dos céus, ele era e seria sempre um Rapaz; por isso, de mochila às costas, afastou-se, levantou os pés do chão, sorriu e percebeu.  

terça-feira, 27 de setembro de 2011

para fazermos já



O poder de Kristoff


Já sabia que Nicholas Kristof era um jornalista especial. Mas hoje fiquei ainda mais impressionada com o poder que o seu nome tem - e como esse poder está a ser usado para combater a fome na Somália.

Kristof, distinguido com o Pulitzer pela sua cobertura dos acontecimentos em Tiananmen, actualmente já quase só escreve opinião. A sua coluna no New York Times é uma das mais influentes do mundo talvez porque ele nunca deixou de fazer o trabalho árduo do repórter, que suja os sapatos, fala com os protagonistas das histórias, pesquisa, investiga e incomoda quem for necessário para conseguir apresentar aos leitores, em menos de 800 palavras, a versão mais aproximada da verdade dos factos.
Kristof tem escrito, nos últimos dias, textos pungentes a partir da fronteira do Quénia com a Somália:

WHAT’S most heartbreaking about starving children isn’t the patches of hair that fall out, the mottled skin and painful sores, the bones poking through taut skin. No, it’s the emptiness in their faces.
These children are conscious and their eyes follow you — but lethargically, devoid of expression, without tears or screams or even frowns. A starving child shuts off emotions, directing every calorie to keep vital organs functioning.

A fome alastra no território, o mundo continua a desviar o olhar.Nada de novo? Acontece que um nova-iorquino, ao ler esta coluna doTimes, decidiu estender a mão ao povo somali, partilhando um pouco do muito que tem.
Kristof anunciou a boa nova no twitter e no facebook:

«Um homem diz que igualará todos os donativos que os meus leitores fizerem para ajudar as vítimas de fome na Somália. E eu digo: vamos levá-lo à bancarrota!»

O homem chama-se Whitney Tilson e, em menos de 24 horas, já teve de desembolsar 200 mil dólares para cumprir a sua promessa. Ele mantém que irá dobrar todos os donativos particulares até 100 dólares. Por isso, se algum dos leitores do Blogkiosk quiser colaborar (!), basta escolher uma organização que tenha missões de ajuda às vítimas da fome na Somália (e pode socorrer-se desta lista doWashington Post, por exemplo), e enviar uma cópia do comprovativo desse donativo para a Leila, assistente do Sr. Tilson, usando o e-mail leilajt2@gmail.com.

Há dias em que, como vêem, o jornalismo tem efeitos práticos e imediatos. Eu adoro esses dias.

(Texto copiado do blog da Patrícia Fonseca, Blogkiosk, e da sua autoria. Eu já fiz o meu donativo. Se o leu, por favor perca a preguiça e faça o mesmo. Crianças com fome, de olhos vazios e sem exprimir as emoções não podem deixar de nos tocar; porque se esse é o caso então estamos claramente a deixar de ser humanos e não merecemos sequer pertencer à categoria dos animais.)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

overdose

A mulher entrou no Museu cheia de alegria por poder estar apenas consigo e com o que decidira ver, durante uma hora. Com demasiado optimismo achou que conseguiria ver as duas exposições. Na primeira, foi-lhe vedada a entrada, já havia demasiada gente a querer ver a  obra de Vik Muniz: 'volte um pouco mais tarde ou comece por ver a exposição de Pedro Cabrita Reis', aconselhou com gentileza o segurança. Era a outra que queria ver. E foi. As salas sucediam-se, alternando instalações poderosas com fotografias e pinturas. Pouco a pouco, a mulher foi ficando sem energia. Era tudo demasiado denso, demasiado narcísico, demasiado escuro nas profundezas. Saiu esgotada apenas com uma árvore e dois quadros gigantescos com azuis orgânicos a oferecerem-lhe um pouco de ar. Para ela a arte também era isto, sair da famosa zona de conforto, mexer. Tinha sido suficiente, quase uma overdose. Olhou para o relógio, consultou a dor nas costas e resolveu que o fotógrafo merecia ser apreciado de cabeça limpa. Saiu para o jardim, sentiu-se agredida pela quantidade de gente, deu um abraço e dois beijos aos seus e voltou sã e salva para casa. 
Meio quilo de morangos e outro meio de framboesas, quinhentas gramas de frutose e dois limões, depois, já estava de novo satisfeita, vertendo duas compotas lindas e saborosas em dois frascos reciclados, acompanhada de risos e narizes pintalgados de frutos silvestres.