terça-feira, 9 de março de 2010

O efeito das palavras

Faz hoje uma semana que deixei de ser fumadora. Custa-me dizê-lo desta forma. Mas é importante o acto de dizer que se abandonou uma forma de ser: as palavras são mais que meras palavras; deixam marcas no nosso interior que, a pouco e pouco, produzem efeitos mais poderosos que o melhor medicamento.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Janela de luz

Roubei indecentemente esta fotografia que estava na página de uma amiga recente. Não sei de quem é e espero que a autora (não sei porquê mas acho que é mulher) não se zangue por este pequeno furto. Mas é tão bonita e cheira tanto a flores que não consegui resistir a colocá-la no meu computador e, hoje, aqui. É uma janela de luz num dia sombrio e triste como o de hoje.

domingo, 7 de março de 2010

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.


William Ernest Henley

quinta-feira, 4 de março de 2010

O salto

É como se passássemos anos a fio com um filtro diante dos olhos que nos fazia ver o céu com nevoeiro. Até que um dia observamos com atenção: o filtro afinal está ao alcance dos nossos dedos; mais surpreendente até, pode ser retirado como se se tratasse de um celofane fino. Então, se tivermos a coragem de querer ver mais longe e nos aventurarmos, avançamos e de forma delicada dizemos adeus ao filtro. A seguir, logo a seguir, vem o salto. Chama-se recuperar a liberdade.

quarta-feira, 3 de março de 2010

A coisa comichosa

O miúdo mais velho foi para o colégio com um herpes tramado a avançar pelo queixo. Saiu de casa sem abandonar o sorriso, sem se esquecer de se despedir com carinho do irmão bebé, aceitando com ligeireza e generosidade a coisa comichosa. Impressionou-me tanta maturidade aos treze anos. É que há adultos bem mais maricas. E geralmente quanto mais maricas são menos acham que podem aprender com os mais novos. Ironias da vida.

terça-feira, 2 de março de 2010

Os actos heróicos

A médica, pequenina e cheia de energia, falou-me dos cinco minutos que dura este impulso tremendo que o nosso cérebro grita com a necessidade de fumar. Disse-me que teria de resistir, que com o tempo ele iria abrandando e, com a perseverança, acabaria por desistir. Deu a todos os meus momentos de persistência o nome de "actos heróicos". No mínimo dos mínimos é uma expressão bonita. E confesso que a perspectiva de ser heróica por cinco minutos, várias vezes ao dia, é arrasadoramente boa pelo efeito que traz.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Dizer adeus a uma identidade

Posso dizer que, para além do de ter ideias a toda a hora e minuto, o único vício que tenho é o de fumar. Dá-me prazer, é certo, mas neste momento provoca-me sobretudo angústia, não só por aquilo que faz ao templo a que chamo o meu corpo como também pela falta de credibilidade que me dá junto dos meus filhos. Afinal, quem sou eu para lhes ensinar a não se tornarem dependentes de nenhuma substância se eu própria não consigo deixar de o ser relativamente ao tabaco?
Amanhã digo adeus aos cigarros. Confesso que já tentei várias vezes mas acredito que esta seja a derradeira. Vou abandonar a minha identidade de fumadora e libertar-me disto de vez. E o facto de o dizer aqui só me dá mais responsabilidade. Afinal, é um comprometimento público e assumido. E ninguém gosta de falhar. Eu, muito menos.