segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Aliança eterna

- Está preparada para que este bebé seja muito mais irrequieto, exigente e provocador que o seu filho mais velho?

- Sim, estou.

- Está preparada para a carga do sistema que ele vai trazer que não é o seu?

- Sim, estou.

- Está preparada para ser a firmeza serena de que ele vai necessitar?

- Sim, estou.

- Também acho. Tal como um bambú, é suficientemente flexível como para poder dobrar-se com o vento; mas tem a estrutura suficiente como para nunca quebrar.

Corei. 
Nunca me tinham feito um elogio tão bonito. 
Nem perguntas tão pertinentes.
De facto, não são necessários padrinhos, testemunhas, conservadoras de Registo Civil ou assinaturas no papel: ter um filho é mesmo um casamento para toda a vida.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Abraço de anjo

Viam televisão de fim-de-semana de férias, os dois deitados no sofá, as pernas dele mais crescidas que as dela, as mãos ainda infantis a esticarem os dedos de dia para dia, sabendo que mais cedo ou mais tarde superariam os da mãe.

- I love you...

Disse ele, passando o braço de doze anos por trás do pescoço dela como um adulto e abraçando-a com o da frente como fazem as crianças.
Confortada, ela sorriu

-I love you too.

Agarrou-se ao filho com força. Não havia dúvidas, nunca as tivera. Aquele menino sempre fora um anjo adivinhador dos momentos mais difíceis. Agradeceu-lhe por alguma vez a ter escolhido. E agradeceu a Deus pela Graça da sua existência.

sábado, 20 de dezembro de 2008

O portão abriu-se e era diferente

O portão abriu-se e os miúdos saíram. A cara do meu repetia-se na dos outros: felicidade absoluta estampada nos sorrisos abertos mostrando dentes brancos, olhos de mil cores brilhando de alegria. Nem as mochilas carregadas ou as despedidas dos amigos faziam sombra; o motivo era importante: adeus primeiro período, adeus aulas, até daqui a 15 dias professores-chatos, professores-bons, professores-moles-a-quem-se-dá-facilmente-a-volta. Olhei para todos e senti inveja boa misturada com nostalgia: tenho bem marcada no meu interior a lembrança desses dias. 
Agora vem um tempo que parece esticar-se um pouco mais, beijos dados sem pressa, leituras em conjunto, partilha. Isto, sim, é Natal.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A medida do muito

Só quero ficar calada, sorrir inúmeras vezes e estar em paz. É pedir muito?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Barco eu pudesse

Hoje eu queria ser barco, barco-veleiro silencioso, onde o vento se perde e desnorteia no pano firme das velas.
Hoje eu queria ser barco, barco-veleiro suave, e acariciar a água ao de leve no casco, dizendo adeus aos peixes, saudando as estrelas do mar.
Hoje eu queria ser barco, barco-veleiro corajoso, e perder-me na imensidão do mar esperando terra firme à vista.
Hoje eu queria ser barco. 
Ás vezes é aborrecido ser pessoa. 
Mas é por ser que imaginamos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A minha vez

Desculpe-me o meu amor por alguma falta de atenção. 
Desculpe-me o meu filho por uma paciência talvez mais curta. 
Desculpem-me os pais e os irmãos por contactar menos vezes nos últimos tempos. 
Desculpem-me os amigos pela ausência repentina. 
Desculpe-me este blog pela falta de palavras.
Ontem não escrevi. 
Foi por uma boa causa: um projecto finalmente completado na certeza de que não poderia ter feito melhor. 
Desculpem-me todos pelo tempo que ele me ocupou. 
Mas valeu muito a pena. 
Hoje, depois das 7 da noite, mereço um doce.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Fico comigo

Quando era pequenina, visitávamos a casa de uma das irmãs do meu pai muitas vezes. Ela vivia na antiga casa do Ramalho Ortigão ali na Calçada dos Caetanos, junto ao Conservatório. A casa raramente estava vazia de gente e se o estava, os salões e os móveis faziam as despesas de muitas conversas. Lembro-me do piano de cauda parcialmente queimado num incêndio e da parede mesmo ao lado que parecia ter sido pintada com os efeitos do fumo e das labaredas. A minha tia dizia que o tio António continuava a tocar, mesmo depois de ter morrido, e que ela falava com ele, noite sim, noite, não. Eu ficava assustadíssima com estes mistérios e a casa parecia duplicar de tamanho. Contudo, todas aquelas coisas me maravilhavam e por isso adorava visitar aquela tia cheia de histórias com ou sem fantasmas. 

A tia Fernanda tinha um cabelo muito preto muito preto, que enrolava em duas tranças finas por cima das orelhas, uns olhos verde-escuro que pareciam de veludo e uma boca que ao sorrir atraía meio mundo. Fazia anos em Dezembro e as festas eram sempre de arromba, sendo que as crianças não ficavam de fora (coisa tão do hábito daquela altura); podiam correr pela casa fingindo susto por causa do Preto-Vicente que, mesmo tendo muita idade para ter juízo, regredia dos seus dois metros aos nossos escassos centímetros para nos entreter com todo o gosto. Uma dessas festas foi tão divertida que fomos os últimos a sair. Eu tinha nove anos e nem um pingo de sono. À saída, o meu pai disse

"Obrigada, Fernanda, que festa maravilhosa. Só tenho pena que fiques sozinha, agora."

Ela riu-se e tudo brilhou em volta

"Sozinha, Alberto? Não fico não, meu querido: fico comigo."

Chamava-se Fernanda de Castro e escreveu muitas outras coisas que ficaram bem mais conhecidas. Mas esta frase marcou-me para o resto da vida.
Hoje lembrei-me especialmente dela porque embora esteja e vá estar grande parte do tempo sem mais ninguém, sinto especial prazer em estar comigo, o que na realidade é bem diferente de estar sozinha.