quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Uma força só

Quando o projecto chegou, confesso que me senti ofendida. Irritada. Desrespeitada, até. Naquele dia, tive vontade de chorar. Chorei mesmo, para quê dizer o contrário. O que o empenho nos faz... 
No dia seguinte, a fibra estava de volta dizendo-me vamos-lá-embora-deixa-te-de-lamúrias-só-está-nas-tuas-mãos-fazer-o-melhor. Arranquei, substituindo a vítima pela raiva, protegendo a sensação de injustiça com o brio e a vontade de fazer mais que bem. Convidei pessoas para participar, inundei-as com a energia da crença e deitámos mãos à obra. 
Na recta quase final, olho em volta e começo a ter muito orgulho no que começa a tomar forma com pés e cabeça. É bom. É mesmo muito bom. 
Mas o melhor de tudo, aquilo que sempre reencontro com enorme prazer, é a construção que se faz em equipa, o valor invariavelmente acrescentado que de um bom team advém. 
Que sorte tenho de ter pessoas como estas a vibrar com o meu entusiasmo e a empenhar-se como se fossem prolongamentos de uma força só.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Hector

No princípio, em Janeiro, ela disse-me que este seria um ano de força. Quis saber porquê. Tem a ver com numerología, explicou. 2008 é 1 e bissexto. E? E um é acção, mudança, terra queimada; resultado que se amplia duas vezes por ser um ano divisível por quatro. Nada será como dantes. Fim ás águas mornas, às meias tintas, aos nims da vida. Boas vindas ao vai ou racha. 
Caramba, se tem sido.Para o bem e para o mal todos temos sentido a brutalidade das mudanças que parecem surgir sem pré-aviso e sem piedade, o mundo a tornar-se diferente a cada semana que passa. Temos visto amigos a crescer e outros a sofrer. 
Quero continuar a acreditar no valor da mudança, no sentido deste 1 que tem afectado populações inteiras. Quero crer que é para alguma coisa. E verdadeiramente creio. Mesmo se me custa aceitar que a partida de um amigo provavelmente era o racha que faltava na existência dele, as meias tintas que já não podia suportar e a viagem inevitável que tinha que fazer para se libertar do fardo que era viver neste mundo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Não me acordem que acordada eu estou




De repente, sonho com cor. Acordada ou a dormir, não interessa para nada o estado. Sonho com cor. Visualizo cor. Toco cor e transformo-me em cor.
Não sei se por necessidade, prefiro pensar que é entusiasmo mas também é outro factor que não importa: o que importa é que cor eu estou. Desconheço o culpado. Sei apenas que tanta cor de espírito me faz sentir bem. 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

coisas que eu não sei dizer II

"A esperança tem duas filhas lindas: a indignação e a coragem. A indignação ensina-nos a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las."
Santo Agostinho

Arrepiei-me ao ler estas frases talvez por serem a minha prática desde pequenina. Obrigada querida Pat pelo teu "Silêncio de Deus" que, entre outras coisas, me deu esta, dando substância àquilo a que todos sempre designaram como a minha inconsciência. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

coisas que eu não sei dizer

"Você ganha forças, coragem e confiança a cada experiência em que enfrenta o medo. Você tem que fazer exactamente aquilo que acha que não consegue."

Eleanor Roosevelt

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Um filho sempre de dois

Olhou para ele e sentiu-se segura. O filho era de ambos e era assim que ela o sentia. Por isso não comungava dos sentimentos próprios das mulheres tidas como modernas. O seu melhor amigo era, em simultâneo, cinquenta por cento do seu filho e seu ex-marido. Se havia pai com todas as letras, era aquele. "Que conforto", pensou. "Nunca estarei sozinha nesta tarefa maravilhosa de ser progenitor de alguém".

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Não.

Lá fora, não se fala tanto. Não se queixa tanto. Não se discute tanto. Não. O que há para dizer diz-se, pondo o dedo na ferida, apontando soluções. Em dois artigos no máximo, por jornal. Não se descascam as desgraças até ficarmos exaustos. Não se esticam as infelicidades até nos sentirmos miseráveis. Não se leva o pormenor sórdido ao mínimo denominador comum até termos vontade de fazer as malas e ir embora. Não. Diz-se o que se tem a dizer e o pronto que vem a seguir é anunciar como o país cresce noutros sectores, como se enfrenta a competitividade que vem de outros lados. Deve ser por isso que se vêem pessoas nas ruas com ar satisfeito. Deve ser por isso que continuam a fazer compras e a jantar fora com as famílias. Deve ser por isso que tudo tem um ar arejado e bem arranjado. Deve ser por isso que as ideias continuam a florescer.
Este nosso gene do fado é tramado. Não é o da música. Não. Esse é lindo. É o da miséria e do miserabilismo de que tanta gente se aproveita para nos deitar abaixo, e nós a ver. Graças a Deus tenho outros tantos genes a pular cá dentro. Por isso, volto a dizer: Não. Não á inércia, não ao pessismismo, não ao queixume de café. Há sempre algo a fazer. Exactamente como me disse alguém num destes dias de fim-de-semana prolongado: "sabes, niña, la crisis tambien es mucho lo que hagamos de ella... y lo que dejemos que nos hagan con ella".