sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Sem título, sem tela


De repente era sexta-feira. Ela, embora antecipando saudades de uma cidade que só voltaria a ver quarenta e oito horas depois, dispôs-se a sentir tudo laranja e violeta pastel. Ela sabia que essa era a maneira mais bonita de fazer com que a segunda a recebesse com mais cores no arco-íris.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Cafeína e outras Ínas

Abusei do café. Fiquei cheia de speed. Senti-me a super mulher com um filho de 12 anos debaixo do braço e outro na barriga. Depois do dia de trabalho, fui com ambos às compras. Fiz 30 quilómetros para casa. Jantei às 9. Deitei o mais velho às 10.Tirei caixotes, despi os armários da roupa de Verão, vesti-os com os agasalhos de Inverno,voltei a colocar tampas e a empilhar caixas. Eram 11 da noite quando barriga e corpo deram o sinal de já chega. Arrastei-me para os lençóis a chamar-me todos os nomes. Às duas da manhã bebi um chá preparado com todo o carinho pelo meu marido. Mas era Esprit de Noel em vez de Rouge... mais teína entrou em circulação nos caminhos e auto-estradas do meu organismo. Noite em branco.Exagerei no esforço. Achei-me capaz de tudo. Hoje estou a pagar as favas mas são umas belas favas,devo reconhecer, arriscando-me a ser uma mãe inconsciente. Graças aos disparates de ontem não pude levar o meu rapazinho ao colégio.
Mimos em dueto. Surpresa-maravilha num dia de semana que ainda por cima é quinta-feira.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Who cares

Quando olhei para o relógio tinha passado tempo demais e eu abusara dos limites de leitura da minha revista das quartas. Saí. Sentei-me no carro e a cantarolar baixinho regulei os retrovisores laterais. Recuei devagarinho. Pum. Tanto acerto e esquecera-me de controlar a minha visão pelo espelho de cima. Pois. Bati num automóvel cinzento, tão cinzento quanto o casal que estava lá dentro. Saíram ambos com ar de quem todos os dias acorda disposto a embirrar com qualquer coisinha. Eu dei-lhes o mote. Depois de muito esfregar e observar descobriram uma mossa provocada obviamente pelo meu recuo a dois quilómetros por hora. Assinei o papel azul e amarelo. Segui. No viaduto, o meu caminho estava cortado, obrigando-me a entrar numa fila imensa. Quando cheguei ao escritório passava das dez e meia, hora sacrílega para quem costuma chegar às nove, como eu. Estou-me nas tintas. Hoje, o Outono assumiu-se, pleno de sol, descendo a temperatura como lhe compete. Eu avisei que gostava de Outonos assumidos, como aliás gosto de tudo na vida. Meias tintas é que não. São uma seca. E seca só quero mesmo no Verão no meio de um campo de trigo tostado pelo sol.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

H2O

Tenho muitos quilómetros de cansaço. O que me cansa, cansa-me, e eu não gosto. Faço a escolha: olho os horizontes disponíveis, perco-me neles e finalmente, salto. Pluf. Desapareci para longe. Para dentro de água, claro. Eu sou e serei sempre um pouco dela.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Nicolás Buenaventura

O homem, alto e magro, senta-se num banco de pernas compridas, resguardado apenas por uma orquestra vazia de músicos e um fundo de Deuses. 
Diante dele, um público ecléctico, assumidamente exigente, espera. 
O homem abre a boca e sem medo, avança, esquecendo que tem apenas pela frente adultos, pessoas que por se acharem crescidas talvez já tenham perdido a inocência ou a vontade de se encantar. Ou talvez não, porque estão ali. O colombiano magro, semicerra os olhos e usa os braços e as mãos, ambos longos, para complementar o seu espectáculo. Pontua-o aqui e ali, com instrumentos simples, como a cuíca. Tudo isto é acessório porque é na forma da voz metálica dele que reside a força do conteúdo.
Nicolás Buenaventura contou histórias lindas na passada sexta-feira à noite, no São Luiz, numa sala esgotada de gente crescida. O Nicolás é mesmo isso: um contador de histórias. É preciso ter uma enorme coragem. Mas ele chama-se Buena-aventura e também Buena-ventura. Acasos da vida que nunca o são.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Salta daí

- Mãe, mãe, temos um sapinho na piscina!
Ela foi a correr. Era verdade: sobre o azul-pastilha-pequena do reservatório rectangular, um pequeno sapo flutuava, os olhos vigilantes observando uma criança de 11 anos e quatro cães histéricos com a descoberta. A mãe achou que o bicho se safava sozinho mas pelo sim pelo não, e como era quase de noite, deram jantar aos cães e obrigaram-nos a ir para o canil mais cedo. Quando ele chegou a casa disse que os sapos não viviam em piscinas. Ela e o miúdo sentiram-se culpados, só que já estava muito escuro. Dormiram ambos a sonhar com rãs.

"Mãe, mãe, o sapinho continua dentro da piscina!" , voltou o filho no dia seguinte. Deixaram os cães presos a ladrar furiosos por perder tão fantástico aperitivo. Armaram-se de uma rede de cozinha e de uma tigela de vidro transparente e decidiram salvar o bicho. Por duas vezes o sapinho entrou nas caixas, frustrando as tentativas. À terceira, o miúdo descobriu como se abriam e conseguiram empurrá-lo para dentro do recipiente como se fosse um legume. Com cuidado, depositaram-no na relva.
"Salta daí, vai-te embora!", disse a criança; e o sapo, nada. Perceberam: era muita planície para tão pouco sapo. Voltaram a empurrá-lo para a tigela e, decidido, o puto levou-o para a floresta de bambus que cercava a casa. Assim que se viu entre a folhagem, o animal não precisou da ordem para saltar.

- Hoje fizemos  mesmo uma boa acção, não foi, mãe?
Ainda lhe resta a dúvida se a emoção que sentiu foi por causa da frase ou da comoção que viu nos olhos dele.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Ciccì Coccò

"A baby chick becomes adult in a few weeks, a cat in few months, a person in 13 years. In childhood we live in the state which in the far east is called Zen: our knowledge of the reality around us happens instinctively through what adults call play. All our senses are open to receive data: looking, touching, tasting, hot, cold, weight and lightness, hard, soft, rough and smooth, colours, shapes, distances, light and dark, sounds and silence... it's all new, everything is still to be learnt and play helps the memory.

Afterwards we become adults and part of society. One by one our senses close up, we hardly learn anything new, we only use reason and the word and the questions we ask are: how much does it cost? what is the use of it? What will I get out of it?

Then, once we are rich, we build ourselves a fine house by the lake and, as reminder of our happy childhood - lost forever - we put a complete set of colourful cement Snow White and the seven dwarves in the garden."

(Introdução do livro Ciccì Coccò, escrita por Bruno Munari.)

Deve ser por isto que eu ainda gosto de por o dedo no nariz às escondidas e de patinhar mil vezes a lama com umas galochas à séria, daquelas verdes. 
Obrigada querida amiga V. por este presente. Sejamos eternamente crianças por dentro e assim suficientemente mágicos como para não roubar isso aos nossos filhos. Será que sou capaz? Hoje vou partilhar uma pastilha elástica com uma amiga. Prometo.

(roubei indecentemente a foto da capa da internet mas não queria deixar de a mostrar; espero que o Bruno Munari e o Enzo Arnone não se zanguem comigo.)